UNK – União Nacional de Kung Fu

Boxe Chinês Sanda

Sanda (Boxe Chinês) é a parte de luta do Kung Fu. É uma prática muito dinâmica. O Sanda desenvolve todos os tipos de socos, chutes e também todas as formas de quedas, rasteiras e projeções. Para pessoas que gostam de lutar, mas muitas vezes não querem fazer os movimentos tradicionais do Kung Fu, o Sanda é ótimo e seu desenvolvimento é muito rápido e com grandes vantagens físicas e psicológicas.


História

Alerta: este artigo não é uma obra descritiva, contém opiniões pessoais do autor
Colaboração: Mestre Kao Chian Tou

Técnicas de SandaSanshou literalmente significa “mãos avulsas” em chinês, que pode ser melhor entendido com o significado extendido de “golpes desferidos com mãos livres e sem roteiro pré-determinado”.

Hoje é considerada uma modalidade desportiva marcial, com regras definidas, que atualmente é conhecida como Sanda que é uma abreviação de Sanshou Dui Da (mão livres para bater). O torneio, por ser na maioria das vezes realizado sobre um ringue alte, sem cordas, também se chama pelo nome deste, de Leitai.

Certamente a forma primitiva de Sanhou surgiu com as necessidades do ser humano em se defender das caças. Mais tarde os conhecimentos assim acumulados passaram a ser aplicadas também e principalmente contra adversários humanos.

Os registros históricos sobre esta modalidade são bem antigos, embora a chamassem por outros nomes. Segue uma lista de alguns registros mais relevantes ao longo da história da China:

  1. “Os Versos”, atribuídos à autoria datada em dinastias Shang (séculos XIV a XI aC) ou Zhou (séculos XI a III aC) mencionam “mãos que combatem animais”, onde mãos tem o significado de “pessoa”.
  2. “As Bibliografías Zuo” do Período da Primavera e Outono (770 a 476 aC) cita “combater arremessando o adversário”.
  3. No Período da Primavera e Outono e no Período das Nações Combatentes (475 a 221 aC) havia registros de artes marciais populares, com armas ou a mão livre.
  4. Autores posteriores fazem referencia a “História da Dinastia Am”, uma obra já extinta, dando pista de que esta possuía seis capítulos sobre “combate a mão livre”.
  5. “Edição ‘Jia’ das Varetas com Inscrições Descobertas em Juyan” menciona “combatendo em Shanhou e luta livre”. Estas varetas se datam da dinastia Han (206 aC a 260 AD); aqui se trata de uma das primeiras aparições do termo “Sanshou” num registro de importância. Nesta dinastia, as técnicas de luta com e sem quedas eram consideradas modalidades distintas, no entanto era comum um mesmo lutador as dominar simultaneamente.
  6. Nas dinastias Sui (581 a 618) e Tang (618 a 907), muito provavelmente como conseqüência da influencia dos povos nômades do norte e do oeste da China, com os quais a região central da China mantinha contatos freqüentes, a modalidade com quedas se destacou; no entanto a modalidade sem quedas também continuou com vigor. Um fenômeno semelhante havia ocorrido na dinastia Han, e posteriormente voltou a ocorrer nas dinastias Song e Yuan (1297 a 1368).
  7. Da dinastía Song (960 a 1297), a obra “Da Luta Livre” menciona que, na dinastía Tang, a luta livre e as técnicas sem quedas eram frequentemente usadas num mesmo torneio. Da mesma dinastía Song, as obras militares “Resumo Principal dos Versos Militares” e “Novo Livro da Eficácia” continham extensa descrição sobre arte marcial popular. Há relatos de que golpes com cotovelo eram permitidos em torneios desta época.

sanshou02Pode-se concluir que a forma de combate a mãos livres em arte marcial sempre esteve presente e vinha sendo documentada ao longo da história deste país. Em épocas mais recentes, ela passou por fases diferentes, bastante relacionadas à realidade em que vivia a China, sob governos impotentes diante de invasões estrangeiras; posteriormente, com a globalização, junto com as demais modalidades de Wushu, ganhou forças para se tornar uma modalidade desportiva dentro dos conceitos atuais.

Na segunda metade do século XIX e no início do século XX, várias revoltas populares na China se utilizavam das habilidades marciais, inclusive a mãos livres, que se tornaram uma das principais características aparentes destas revoltas. Nesta fase, o Wushu como um todo adquiriu características místicas.

Com a Revolução de 1911 foi fundada a república, no entanto a China continuava a sofrer das mesmas dificuldades da época do império. No período da república, o Wushu passou a ser associado fortemente ao espírito de patriotismo na China e a sua manifestação prática, o combate, passou a ter um significado especialmente relevante. Várias tentativas de modernização ou inovação foram empreendidas.

Em 1908, a “bravura a mão livre” foi incluída no currículo do Liceu de Educação Física de Chongqing.

Em 1909 foi fundada em Shanghai a ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA JINGWU, por iniciativa privada. Nela se incentivou a incorporação dos conhecimentos modernos sobre o esporte e a padronização e sistematização tanto das formas (rotinas) como dos métodos de treino e extenso material didático foi publicado. Também se incentivou a prática de mais de uma modalidade desportiva por uma mesma pessoa, assim como a utilização de fotografias como ferramenta de arquivo técnico.

Em 1911 foi lançada a versão “Wushu Moderno” (“Xin Wushu”), incorporando vários conhecimentos da educação física militar da época e possuía uma subdivisão chamada de “Quanjiao” (literalmente “socos e chutes”) em que se permitiam ataques com cotovelo e joelho. No entanto esta versão não durou mais que vinte anos.

Em 1928, a Academia Central de Guoshu da China promoveu a Primeira Prova Nacional de Guoshu, incluindo o torneio de “Quanjiao Leitai” (“chutes e socos no tablado”). Outras provas foram promovidas subsequentemente. Com o desenrolar da guerra de resistência contra a invasão japonesa, esta academia perdeu força, vindo a se fechar às vésperas da Libertação (Revolução de 1949). Os maiores méritos da Academia Central foram as tentativas de enquadrar o Wushu/Kung Fu (inclusive o combate) em moldes modernos, com regras de competição e protetores, promover o desenvolvimento e a difusão do Wushu/Kung Fu através do apelo de patriotismos e a participação maciça dos militares que trouxe muita vitalidade e objetividade à parte aplicada. Várias academias oficiais também foram fundadas nos anos de 1930 e 1940 nas províncias, tendo algumas delas desempenhado papel de importância na história do Wushu, sempre com ênfase em combate.

Após a Revolução de 1949, o regime nacionalista da China se refugiou na a província insular de Taiwan, onde, como tradição herdada da Academia Central e suas filiadas, a aplicação prática do Wushu sempre foi muito valorizada. Em 1956 se realizou o primeiro campeonato da pós-revolução na região sob administração nacionalista e o torneio de combate sempre foi parte principal destes campeonatos que duram até os dias de hoje. No entanto, em função de considerações técnicas e estratégicas adotadas, os regulamentos sempre tiveram preocupações excessivas, e por isso inadequadas de acordo com a opinião de uma boa parcela de pessoas, com a saúde dos atletas, limitando o desenvolvimento pleno desta modalidade.

No Sudeste Asiático, também como influencia da Academia Central da China, de Taiwan e de Hong Kong, houve uma tentativa de se promover a modalidade de combate através de torneios internacionais sob o nome de Leitai. O primeiro evento aconteceu em 1969 e o esforço seguiu ao longo dos anos de 1970. Também o receio de acidentes limitou bastante seu desenvolvimento duradouro. Outros fatores limitaram o sucesso desta iniciativa; eles teriam sido a ausência de apoio e reconhecimento oficiais, custo relativamente alto das despesas de viagens internacionais comparado ao poder aquisitivo da época e o fato do evento ter sido promovido entre países e regiões com uma população total relativamente pequena.

Na parte continental da China, após a Revolução de 1949, se realizou o Primeiro Campeonato Nacional de Wushu em 1953, do qual a prova de sanshou fez parte. No entanto, na segunda metade dos anos de 1950, em consequência de um acidente mortal num torneio de boxe, se decidiu que os torneios das modalidades de contato fossem suspensos temporariamente. Logo a seguir esta região da China se envolveu em conturbações políticas que duraram até 1976 e as atividades desportivas praticamente foram paralisadas. Em 1978, o Comitê Desportivo Nacional da China decidiu retomar as atividades de sanshou e, no ano seguinte, três entidades de ensino superior reiniciaram os trabalhos de pesquisa e ensino de sanshou. Em 1979 houve um campeonato com caráter de demonstração. Em 1981 se iniciou o trabalho de elaboração do regulamento de Sanshou, cuja primeira versão foi adotada oficialmente em 1983. Em 1985 se realizou o Primeiro Campeonato de Sanshou da Polícia Militar da China, que se desdobrou em eventos anuais. Em 1987 Sanshou se tornou modalidade reconhecido pelo Comitê Desportivo da China.

sanshou03Fora da China, principalmente nos países do Ocidente e do Sudeste Asiático e desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o Wushu sempre esteve presente como esporte amador, tendo sido introduzido pelos imigrantes de origem chinesa. A aplicação prática, neste caso, permaneceu dentro dos conceitos populares da época em que seus introdutores saíram da China e era fortemente influenciada pelo regionalismo que predominava em cada caso. Estes conceitos não necessariamente eram objetivos ou científicos e vieram a sofrer mudanças mais significativas somente no fim da década de 1980 quando a China retomou a iniciativa de promover o Wushu a nível internacional; mesmo assim a mudança não foi genérica.

Em 1988, se realizou o Primeiro Festival de Wushu da China e o Terceiro Campeonato Internacional Invitacional de Wushu em Hangzhou, China, durante o qual a prova de Sanshou contou com a participação de atletas provenientes de 15 países. Em 1989 realizou-se o Primeiro Campeonato Nacional de Sanshou na China. Em 1991 Sanshou foi modalidade de demonstração no primeiro Campeonato Internacional de Wushu em Beijing e, em 1993, a prova de Sanshou passou a ser modalidade oficial no Segundo Campeonato Internacional de Wushu, em Kuala Lumpur. A primeira Copa Mundial de Sanshou se realizou em 2002, em Shanghai. Desde 2001 a China realiza rodadas anuais de Kung Fu Super King, um evento profissionalizante, no qual muitos atletas estrangeiros de outras artes marciais lutam sob convite.

Na primeira metade do século XX, vários praticantes de Wushu se destacaram como exímios lutadores, entre eles: Wang Ziping, Gu Ruzhang, Zhu Guozheng e Wan Laisheng, a maioria deles era vinculada à Academia Central da China. Da geração seguinte, alunos das academias oficiais tiveram o maior destaque. Desde o fim dos anos 70, várias gerações de atletas chineses e de outros países contribuíram com suas participações em respectivas épocas. Dos melhores lutadores chineses estão os seguintes nomes: Tong Qinghui (segunda metade dos anos 70 até meado dos anos 80), Zhuang Hai (ao longo dos anos 80), Chen Chao (anos 90) e vários de uma safra recente: Geri Letu, Li Jie, Zhao Zilong, Xue Fengqiang, Qiao Xiaojun, Baoligao e Liu Hailong. Atualmente Liu Hailong é considerado o melhor do mundo. Do Brasil devemos salientar os seguintes nomes: James Ayres (primeiro campeão mundial brasileiro/1991), Luiz Carlos Peçanha (vice-campeão mundial/1991) e Eduardo Fujihira (único detentor de títulos de campeão mundial de Wushu e de Kuoshu). O maior título mundial de Sanshou é o World Kung Fu King de peso pesado, que foi disputado em dezembro de 2.003 entre o chinês Li Hailong e o brasileiro Eduardo Fujihira em Beijing. Atualmente os países com melhor nível de Sanda são China, Rússia, Vietnã, Irã, Egito e Brasil.

Ao combate de Wushu sempre se atribuíam quatro tipos de ataque, a saber: socar, chutar, projetar e imobilizar. Apesar de ênfase mais ou menos acentuada de parte delas em períodos diferentes e da formação de uma modalidade separada somente de quedas, estas técnicas permanecem como a essência de Sanshou, complementadas por esquivas e pelo resultado de treinos para o aumento de fôlego e resistência a golpes. Atualmente a imobilização não é permitida na maioria das versões de torneio de Sanshou. Além das técnicas, há ingredientes considerados primordiais: velocidade, precisão e potência.

Desde a retomada das iniciativas referentes à Sanshou na China, nas décadas de 1970 e 1980, muita gente, em nome da tradição, criticava o Sanshou da época, considerando o mesmo como sendo mistura de boxe com chutes e eventualmente com outras artes marciais orientais. Isso não poderia ter fundamento, pois o conhecimento da China sobre o boxe e outras artes marciais era tão limitado que não permitia uma influencia tão significativa destas. A questão era que a objetividade necessária para uma modalidade de contato dentro dos moldes contemporâneos exigiu naturalmente que os golpes mais rebuscados, entendidos erroneamente por alguns como sendo os únicos representativos da tradição, cedessem lugar a golpes mais diretos e simples, dando a impressão, aos olhos leigos, de semelhança com boxe ou outras artes marciais. Esta tese foi reforçada pelo fato de muitos atletas procurarem se especializar, num período relativamente curto, em alguns pouco golpes mais simples e eficientes. Entretanto, pessoas que possuem certo conhecimento são capazes de distinguir facilmente as diferenças entre o Sanshou e as demais artes marciais. Hoje há um esforço grande para recuperar as características mais marcantes do Wushu tradicional em Sanshou, conferindo pontuação mais elevada a golpes e técnicas mais típicos.

Desde cedo se discutiu muito a adoção ou não de protetores e o tipo a ser adotado. Na Primeira Prova Nacional, não se usava protetores no torneio de “Leitai”, no entanto na Segunda Prova Nacional os protetores já haviam sido adotados. Os eventos promovidos em Taiwan e no Sudeste Asiático usavam e usam uma grande variedade de protetores, inclusive o capacete com grades que protegem o rosto. O maior destaque dos protetores usados em Taiwan é a luva com dedos expostos, que permite agarrar e facilita a imobilização, no entanto a prática demonstra que o dinamismo dos torneios raramente propicia as técnicas de imobilização, enquanto em outras versões as luvas inteiras nunca trouxeram dificuldade para agarrar, dentro das necessidades do torneio. O capacete com grades tem sido de grande utilidade na fase inicial, mas atualmente tornou-se redundante. Nas versões de torneios em que se usam o capacete aberto ou mesmo quando se aboliu o capacete, raramente ocorre um caso de ferimento mais grave no rosto ou na cabeça em conseqüência do tipo do protetor ou da ausência deste; as técnicas se evoluíram de tal maneira que os atletas se protegem muito bem. Pode-se afirmar que a versão mais difundida de Sanshou, em vários aspectos (organizacional, técnica, de regulamento, participação e difusão etc.) é a da International Wushu Federation-IWUF e da Copa Mundial de Sanshou, no campo amador, enquanto a versão adotada pelo Kung Fu Super King na China, um evento profissionalizante, é a mais evoluída. A primeira usa ringue aberto, capacete aberto, colete, luvas inteiras, protetor de dentes, coquilha e caneleiras. A segunda usa ringue cercado, luvas inteiras, coquilha e protetor de dentes. Um estudo para adotar luvas com dedos expostos e permitir técnicas de imobilização está em andamento para ambas as versões. Acredita-se que, dentro do que é permito pelo esporte amador, e principalmente no futuro pelos regulamentos dos Jogos Olímpicos, as tendências do Kung Fu Super King devem orientar a evolução das regras e protetores a serem adotados pela IWUF (International Wushu Federation).

Com o esforço contínuo para aperfeiçoamento empenhado pela corrente principal liderada pela IWUF e suas filiadas, com a interação cada vez maior do Sanshou com outras modalidades de contato e com a inclusão de conhecimentos modernos de ciências tais como biomecânica, medicina desportiva e administração, o Sanshou busca um caminho de evolução saudável e duradouro que o transforme numa combinação racional de arte milenar chinesa e modalidade desportiva moderna. Este esforço só terá sucesso se audácia, criatividade, bom senso, respeito à tradição, senso de responsabilidade e conhecimento acadêmico desempenharem seu devido papel.